quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Caixa de Pandora




Venho do canto mais escuro da Terra
Do ventre da Mãe dos tempos ocultos
Da mais significativa de todas as eras...
Venho de onde nenhuma canção me é estranha,
Onde sentir dor não acanha...

Descendo daqueles que não morrerão,
Daqueles que nunca sentiram o ardor do perdão
Por que jamais tiveram o que perdoar...
Fui gerada na água da vida, no seio do mar,
Por rimas compostas pelo sopro do ar,
Onde o fogo arde a lenha seca sem queimar...

Ninguém se perde na vida sem antes caminhar,
Traçar seu destino torpe, sem tropeçar...
Como quem quer alcançar, não se sabe o quê, a largas passadas
Chegar onde sem saber quando
Resgatar um corpo que bóia em mágoas afogadas
Olhar o horizonte e ver pássaros em bando...

É como traçar uma linha reta com vareta torta,
Saber aonde ir sem ter onde chegar.
É querer entrar sem bater à porta;
Ver a noite cair sem querer na escuridão tocar...
Como quem quer mudar aquilo que não te pertence,
Querer ver o que não é aparente...

Acender uma vela sem que haja chama
Se perder por perto e não voltar atrás...
Nesse mundo avesso que por socorro clama
Realizar algo para o qual não se sente capaz.
Perguntar e não querer resposta,
Pedir ajuda e não estar disposta...

Então, retorno para onde sequer saí
Recuperando o tempo que nunca perdi
Pro colo da Mãe que nunca me abandonou,
Para um sonho que você também não sonhou...
De alma terna, limpa e nua
Olhando as mechas de luz da Lua...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Reflexo (Kamilla)







Sou o caos em inércia, poeira de estrela
Confusa controvérsia, rimada em canção.
Sou a prece sem pressa, oração em centelha,
Fogueira, acorde, clamor e paixão.

Sou amante das tempestades,
Sou quem sorri com os olhos e se cala com o coração...
Sou silêncio e serenidade,
Calmaria e devastação...

Sou um desenho na areia
E o vento que varre cada grão...
Sou a eternidade que vaga sem candeia
Em uma simples noite banhada em escuridão.

Mas também sou manhã, que explode em cores e vida.
Sou a semente que alça vôo sem saber seu destino,
O sorriso choroso de cada despedida,
E o sonho que desperta no adormecer de um pequenino...

Sou uma dose de dúvida venenosa
Quando desabo e reconstruo o mundo que há em mim.
Mas continuo de forma leve, graciosa...
Eu sou o meio, depois do começo e antes do fim.

Lua vermelha


Sinto por tudo ter sido em vão,
As palavras, as promessas, os sonhos soterrados;
Não sei onde pequei, não aprendi à pedir perdão.
Não sei viver em um mundo desmoronado,
Não sei andar sem pôr meus pés no chão,
Não sei dar um sorriso amargurado,
Não posso aplaudir a desilusão.

Andei por caminhos tortuosos,
Desisti antes de começar.
Confessei-me ante teus olhos voluptuosos,
Apaguei a luz pra não enxergar.

Não me sinto perdida,
Não adianta tentar me amarrar.
Sei curar minhas feridas
De um modo que não sei explicar.
Não há ponto de partida
Não há fuga de onde não se pode entrar.

Não há Lua nesse céu triste
Não adianta contemplar.
Não se prenda ao que não existe
Eu não sou desse lugar.

Não me imponha a sua verdade
A minha já me satisfaz.
Não ajo contra a minha vontade,
Não sinto falta do que deixei pra trás.
Não sei o que é saudade,
Não sei do que é capaz.

Não se sinta culpado,
Eu também não vou me responsabilizar.
Tudo, hoje, torna-se passado;
A futilidade dessa atmosfera vulgar.
Minha alma é livre, meu corpo é alado,
Nunca conseguiram me calar.
Também já tive meus pulsos cortados,
Seus gritos de pavor não vão me consternar.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Aspiração


Que o cansaço não pese em minhas costas antes que eu possa terminar...
Que eu não desista antes de persistir...
Que minhas dúvidas que não tem resposta sejam dispersas no ar
E que, mesmo quando estiver exausta, consiga prosseguir...

E quando mais nada fizer sentido, que eu continue só por loucura...
Mas, que meu orgulho não me cegue e a falta de coragem não me atinja
E que eu consiga perceber cada tropeço pelo caminho com doçura
E que o desespero ansioso nunca me aflija...

E mesmo que eu não encontre o que procuro no fim
Que eu perceba que ganhei marcas de tanto viver
E saiba que encontrei uma parte de mim
E que minha alma nunca se cansa de aprender...

Que eu não exija mais do que posso ser
E que eu me permita um sorriso cada vez que falhar,
Mas que eu não me acostume à deixar vencer
E que eu nunca sacie a minha sede de lutar...

Que eu compreenda que a dor faz parte do caminho
Mas que eu deixe meus ferimentos cicatrizarem...
Que eu não deseje mais do que o sol, a lua e a água movendo o moinho
Mas que eu não veja meus dias vagos, simplesmente passarem...

Maíra


Aqui há o reencontro dos que não se perderam,
Dos olhos repletos de um vago profundo,
De natureza morta, encharcada do que receberam.
Da dor que tiveram em não se compartilhar com o mundo...

A dádiva da dor martiriza e ensina,
Os erros e tropeços mostram que não foi em vão.
Do caos à tempestade, a Lua é tua sina,
Aprende sem sofrer, liberta-te do porão.
Abra tua alma, parva menina...
Não te lamuries, execra a solidão.

Seca tuas lágrimas e faz por merecer,
És parte e essência de quem te criou.
Tão forte e latente pulsa em teu ser
Frações d’alma da Mãe que te gerou.

Ouça o silêncio profundo e sereno,
Reconhece em teu ser o dom de ainda poder sonhar
Agradeça com um simples sorriso ameno
Por ainda ter em quê acreditar.

Ainda és semente de tempestade
Adormecida, mas fecunda e imortal.
Acorda em ardor antes do fim da tarde
Esqueça as regras, a podridão e a moral.
Já é finda a era da realidade
Abdica de tudo que a ti for banal.

Dê graças ao poder que tens sobre tua própria vida
Rompa os lacres do teu coração
Sele com brasa tuas feridas.
Desamarra tua alma, faz teu próprio perdão...

Samantha


És parte do profano e do sagrado,
Do tempo que te divide em partes iguais.
És, no deserto, o caminho que foi traçado
Na areia, por serpentes rivais.

Tua alma foi criada em noite de lua cheia
Abrindo os portais do mundo,
Em uma roda em torno da fogueira.
Eram vivos os olhos que te cercavam,
O silêncio emitia um tom profundo,
Enquanto as mãos da Mãe te acariciavam.

És o tom que dá ritmo à loucura e à canção,
A essência do som que sibila no ar.
O ventre sagrado gerou teu coração,
És o pulso que bombeia o rio para o mar.

És o vento que provoca a tempestade,
Derivas de uma longínqua oração
Que ainda embala os sonhos da humanidade.
És da terra o sal, o caos da criação,
És o sol no fim da tarde
O poder é o desenho na palma da tua mão.

És menina, mulher e feiticeira
Senhora devota, moça recatada,
Tens a alma perolada
Pagã,amante faceira.

És no infinito,o contorno da estrela
És o que preenche o vago,
És do fogo uma centelha.
És o doce e o amargo.
Da beleza,és a sublime expressão.
Da Mãe,herdara a perfeição.

És o fim do que não finda,
O céu e o inferno da repetição.
Tuas mãos giram a roda da vida,
Todos os destinos,um dia,à ti pertencerão.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Em laços e sintonia:



Estenda-me tuas mãos
E permita-me trazer-te pra fora do mundo.
Compartilha comigo as insanidades que espalho em canção
Mergulhemos em sonhos, como em um poço sem fundo...

Faz parte do que já não existe mais,
Mas ainda cintila no cosmo como uma estrela.
Perpetua no abstrato que nos torna iguais
De ti, levo em meus olhos uma centelha,
Não possuo somente lembranças banais
Que se dissolveriam no fogo como cera.

O abismo da existência não nos separa
Somos florescência da mesma magia.
És o aroma da erva mais rara;
Torna-te agora o som que me guia.

És a loucura que me mantém sã,
A ironia do mundo que me permite sorrir.
És o tom róseo do iniciar da manhã
E a noite púrpura que vem a seguir.
És a mão que seca minha lágrima vã
O que me dá forças pra viver sem sentir.

Desvela os mistérios da minha alma,
Como ninguém antes pôde fazer.
Equilibra minha harmônica calma
Que não permito deixar compreender.

Dancemos em círculo ao som do universo...
Transporto-me para o teu lado ao me silenciar
Transcrevo-te sublime em um simples verso
Palavras impossíveis de interpretar.

Tornemo-nos um código indecifrável;
Eternizados em fogo e luar
Em uma noite clara interminável.
E o fim não pôde nos alcançar...
A vida e sua busca incansável
São acordes a se dissipar...

E o fim se aproxima do começo,
Girando, nauseante, sem parar.
Abro os olhos e nada reconheço,
Mas ainda te sinto aqui, a me sustentar.